A época do Futebol Juvenil já terminou e o momento não poderia ser melhor para abordar o trabalho que tem sido realizado neste campo. Vice-Presidente responsável pelo Futebol Juvenil do Oriental, José Carlos Pires fala em exclusivo para a família orientalista e faz o balanço dos resultados alcançados, aponta os objetivos estruturais e perspetiva um futuro que garante ser risonho para as camadas jovens do seu clube de sempre. A consciência, a seriedade, a dedicação e a ambição que pautam a gestão dos nossos escalões de formação, analisados à lupa pelo homem forte do Futebol Juvenil do Oriental.
   
  - Comecemos por falar da história da sua relação com o Oriental. Qual foi o seu percurso como orientalista até chegar a Vice-Presidente?
- A minha relação com o Oriental é longa. Fui nascido e criado aqui em Marvila, sempre vivi nesta zona e tenho mais de três décadas como sócio do Oriental. Estive ligado ao Futebol Juvenil do Oriental há cerca de 14 anos mas na altura por vicissitudes da vida acabei por sair, até ao dia em que há mais ou menos um ano recebi um telefonema do nosso Presidente José Nabais a convidar-me para ser o Vice-Presidente responsável pelo Futebol Juvenil. Aceitei o convite de bom grado e, apesar de parecer que foi ontem, passado um ano ainda cá estamos a trabalhar em prol do nosso Clube.   

- Quais os contornos globais do projeto definido para o Futebol Juvenil aquando da sua entrada?
- O projeto passava pela reorganização do Futebol Juvenil e foi essa a nossa primeira preocupação. Fizemos reuniões individuais com treinadores e seccionistas para averiguarmos quem queria realmente ficar no Oriental e a verdade é que praticamente todos permaneceram nas suas funções com o mútuo compromisso de promover e potencializar o diálogo entre os intervenientes dos vários escalões. Todas as opiniões foram ouvidas e em conjunto com o Presidente fomos limando os pontos que careciam de alterações. A nível disciplinar foi um ano muito calmo e tirando os dissabores da descida dos Juniores e da não subida dos Juvenis podemos dizer que esta foi uma época muito positiva.  

– Falando agora dos resultados, os principais objetivos desportivos definidos para esta época passavam pela manutenção dos Juniores e pela subida dos Juvenis mas ambos falharam. O que faltou a estas equipas para alcançarem as metas propostas?
- Aos Juniores faltou sorte nalguns jogos. Foi uma equipa que teve duas fases distintas, uma primeira em que os resultados não apareceram e uma segunda em que já com o atual técnico Fernando Costa começámos bem com três vitórias consecutivas mas voltámos a quebrar na reta final. Já o caso dos Juvenis foi diferente. Tivemos uma primeira etapa da competição muito bem conseguida mas as duas derrotas com o Abóboda na fase final acabaram por nos encaminhar para um play-off que não nos correu bem e que fez com que a subida nos escapasse por muito pouco. Foi uma frustração muito grande os Juvenis não terem subido de divisão pelo facto de serem uma equipa com muita qualidade, mas sabemos que o futebol é assim mesmo.

- Já no que diz respeito aos restantes escalões o balanço foi diferente…

- No que concerne aos escalões mais jovens, os nossos craques dos Infantis 7 alcançaram uma excelente estreia com uma época de alto nível. Nos Infantis 11 tivemos muita dificuldade em encontrar jogadores mas conseguimos acabar a época com 20 atletas que defenderam as nossas cores até ao último minuto. Os Iniciados fizeram uma boa primeira volta, quebraram um bocadinho na fase de adaptação aos métodos de trabalho do novo treinador mas aos poucos souberam encontrar o seu caminho e conseguiram alcançar um excelente sexto lugar. É também por isto que, pese embora os resultados dos Juvenis e dos Juniores, no cômputo geral foi uma época positiva.
   
– Parece evidente que o propósito do Futebol Juvenil ultrapassa os resultados desportivos. Existe também uma componente social e até educacional diretamente relacionada com a formação destes miúdos?
- Uma das funções do Futebol Juvenil do Oriental passa muito por esta componente social. Formamos estes miúdos como jogadores e como homens e eles sabem que o Oriental não é só um Clube de futebol, é também uma Instituição de Utilidade Pública que desempenha um papel ativo no desenvolvimento social da região onde está inserido. Basta dizer que numa das nossas equipas temos alguns miúdos da Casa dos Rapazes que pedem e seguem os nossos conselhos. Para além disso, jogam aqui atletas de todas as etnias que são geridos da melhor forma pelos treinadores e que criam laços de amizade entre si, tornando a prática do desporto em algo muito saudável tanto a nível físico como a nível psicológico e social. Fazemo-los ver que o Oriental é um Clube com tradição e com uma reputação a manter que assenta muito no desportivismo, no fair-play e no bom carácter dos seus atletas e eles sabem que para cá ficarem têm que se reger por estes princípios. A verdade é que a nível disciplinar tivemos equipas que não viram um único cartão vermelho durante toda a temporada, o que é de facto de assinalar e que valoriza o trabalho de todos os envolvidos no Futebol Juvenil do Oriental.

– Uma das maiores bandeiras do Presidente do Clube Oriental de Lisboa José Nabais tem sido a aposta no crescimento do Clube pela base, fundada na superior importância da edificação das infraestruturas. É este também um pilar fundamental para o desenvolvimento do Futebol Juvenil do Oriental?
- Sem dúvida. O Oriental era dos poucos clubes em Lisboa com um campo pelado e os jogadores preferiam ir para outros clubes exatamente por essa enorme lacuna das nossas instalações. Com a preciosa colaboração da UEFA, esta realidade foi alterada e os resultados provenientes da construção do novo campo de futebol 7 em relva sintética vão começar a aparecer já na próxima época a vários níveis. As condições de treino dos nossos atletas vão ser melhoradas em larga escala e a nível financeiro vai-nos ser possível encurtar o número de utilizações do Campo do Ferroviário, espaço onde até à data as nossas equipas treinavam com superior regularidade, e com isso reduzir os custos referentes ao seu aluguer. Essa poupança vai ser localizada para a contratação de treinadores de guarda-redes para todos os escalões da nossa formação, algo que será fundamental para potenciar o talento dos nossos guardiões. Mas isto não chega, nós somos ambiciosos e queremos mais. Temos um novo complexo desportivo programado para ser construído nos terrenos da Quinta Marquês de Abrantes, esse será o próximo passo para o desenvolvimento sustentado do Clube Oriental de Lisboa e que poderá dar o decisivo impulso à nossa formação.

- As pessoas que trabalham no Futebol Juvenil do Oriental lidam diariamente com atletas que têm ambição de chegar à equipa principal do Oriental. De que forma se processa a gestão de emoções e expectativas destes miúdos?
- O desenvolvimento do Futebol Juvenil tem que passar pelo objetivo supremo de fortalecer a equipa principal. Sabemos que nem todos os Juniores podem ter a possibilidade de dar o salto para a equipa principal mas o nosso trabalho vai no sentido de aumentar cada vez mais esse número. Quanto aos que não ficam, recebem sempre a notícia numa reunião em que eu e o Presidente José Nabais fazemos questão de prestar o nosso agradecimento por toda a dedicação por eles desenvolvida ao longo do período que representaram o Oriental. No final das contas acredito que saem com um carinho especial pelo Clube por sempre terem sido bem tratados e por deixarem cá amigos. Nós aqui apostamos muito nas relações pessoais, nesta época trabalhámos com cerca de 120 miúdos desde os Infantis 7 até aos Juniores e eu cumprimentava-os todos pelo nome. Eles gostam deste tipo de pormenores e sentem-se acarinhados, o que faz que mesmo no caso de um dia saírem do Oriental guardem boas recordações do Clube.  
 
– Falando agora um pouco mais da vertente financeira, é acertado dizer-se que os custos inerentes à formação constituem-se em si mesmos num entrave ao desenvolvimento do Futebol Juvenil?
- O Futebol Juvenil é muito mais dispendioso que a maioria dos orientalistas possam imaginar e temos que levar em consideração que perto de metade do orçamento do Futebol Juvenil é atualmente para aluguer de campos. Se tivéssemos o nosso campo de futebol 11 em relva sintética, e aí voltamos à enorme importância das infraestruturas, poderíamos canalizar esse dinheiro para outras coisas. Para além de tudo isto, o sistema em vigor no que concerne ao universo dos direitos de formação e transferências de jogadores menores protege apenas os maiores clubes. Aqui há uns anos atrás se um clube grande quisesse vir buscar um jogador nosso o Oriental teria que dar uma autorização para o jogador sair em contrapartida de uma compensação financeira. Lembro-me por exemplo do caso do Paulo Sérgio, extremo que está agora no Olhanense, que na altura que cá jogou foi transferido para o Sporting por uma verba que pagou a época inteira do Futebol Juvenil. Hoje não é assim, no final da época qualquer clube pode falar com os miúdos e no caso de eles quererem podem desaparecer sem dar qualquer satisfação ao Oriental. A somar a esta realidade, o facto de alguns clubes terem equipas A, B e C por escalão possibilita-os, pelas melhores condições que têm ao seu dispor, de absorverem uma grande percentagem dos maiores talentos do nosso futebol. É um sistema que prejudica os clubes, a competição e os próprios atletas e que por esse motivo devia ser revisto.

- As captações do Oriental para a temporada de 2013/2014 decorrem durante este mês de Junho. Que fatores podem incentivar os jovens atletas a preferirem o Oriental em detrimento de outros clubes?
- O Oriental é um Clube histórico do futebol português, um Clube com nome que na próxima época vai estar da II Liga. Existe a honra e o orgulho de representar o Oriental. Prova disso é que temos aqui miúdos que já foram assediados pelos grandes e que nunca quiseram sair por serem do Oriental e de famílias afetivamente ligadas ao Oriental. Felizmente ainda há estes exemplos no nosso Clube, tanto dos miúdos como dos próprios pais que fazem questão que os filhos permaneçam no seu Clube de sempre. Tudo isto, aliado ao facto de termos agora um novo campo em relva sintética, tem feito com que a afluência aos nossos treinos de captação que estão a decorrer desde o início deste mês de Junho esteja a ser muito superior ao esperado. Só no primeiro treino dos Juniores apareceram mais de 80 jogadores para serem observados e nos outros escalões os números também têm sido muito satisfatórios. Não significa isto que quantidade seja qualidade, mas as perspetivas são boas e acredito que vamos ter aqui alguns craques para o ano.

- Como está a decorrer a preparação da próxima temporada?

- As captações são apenas um dos pontos do trabalho que estamos a desenvolver para a próxima época desportiva. A logística inerente a toda a organização do futebol de formação é complexa e necessita de ser estudada com cuidado para tudo funcionar na perfeição e é nesse prisma que posso garantir que a nível de treinadores, seccionistas, fisioterapeutas e planeamento dos treinos já está tudo definido para a próxima temporada. Todos os treinadores que cá estavam vão continuar, à exceção do técnico dos Infantis 11 que vai sair pelo facto de o escalão deixar de existir no Oriental a partir de agora. Vamos passar a ter duas equipas de Infantis 7 de forma a potenciarmos o nosso novo campo, que tem as dimensões indicadas para este formato de competição. É com esta seriedade e dedicação que pretendemos continuar a pautar o nosso caminho.

- E no que concerne a objetivos desportivos, já foram delineados?
- Os objetivos desportivos para a próxima época ainda não foram definidos com os treinadores, mas terão que passar obrigatoriamente pela subida dos Juvenis. Relativamente aos Juniores sabemos que a Liga de Honra da AFL é tão ou mais competitiva que a 2.ª Divisão Nacional mas vamos fazer os possíveis. Quanto ao resto, o objetivo global passa por manter os miúdos de escalão para escalão para que possamos desenhar um percurso de continuidade ao nível da formação que permita aos nossos atletas passarem vários anos na nossa companhia.   

– Como vê o Futebol Juvenil do Oriental daqui a dez anos?
- Vejo que daqui por dez anos o Futebol Juvenil do Oriental vai estar bem e vai-se recomendar. Assim que tenhamos o nosso tão desejado complexo desportivo construído, a matéria-prima vai começar a aparecer em cada vez maior escala e creio que, e essa é também a convicção partilhada por toda a Direção, daqui por dez anos poderemos ter todas as nossas equipas a competir nos campeonatos nacionais. É uma visão ambiciosa mas é o que nós desejamos. Não sabemos como será o futuro mas com o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido não tenho dúvidas que o Futebol Juvenil do Oriental vai dar cartas a nível nacional.

- É legítimo que neste contexto os orientalistas possam sonhar com o regresso das famosas equipas seniores compostas maioritariamente por jogadores formados no COL?
- Os tempos são outros e a realidade da região onde estamos inseridos também, mas sabemos que continua a ser uma ambição de todos os orientalistas ver uma equipa sénior constituída maioritariamente por jogadores das camadas jovens do Oriental. Acredito que se seguirmos o nosso rumo poderemos, passo a passo e com o tempo que tal desígnio exige, vir a concretizar um dia este desejo.

- Disse-me que antes de terminar a entrevista gostaria proferir alguns agradecimentos.
- Quero agradecer o empenho, dedicação e carolice de todos aqueles que contribuíram para que o Futebol Juvenil do Oriental se mantivesse com a vivacidade que tem tido, nomeadamente os treinadores que são os grandes obreiros, os seccionistas, os fisioterapeutas, os roupeiros, o Secretário Técnico João Mendes e, obviamente, a Direção e em específico o Presidente José Fernando Nabais. Agradecer também ao Departamento de Comunicação pelo inédito acompanhamento e divulgação do Futebol Juvenil realizado durante esta temporada, sinal de que esta Direção quer mais do Futebol Juvenil e mais do Clube. Resumidamente, quero agradecer a todos aqueles que trabalharam connosco e aos atletas por serem eles a mola real do Clube. Aos que ficam e aos que saem fica a nossa gratidão pelo trabalho desenvolvido e esperamos que estejam todos orgulhosos por representarem o Oriental.

 Entrevista e Fotografia: Diogo Taborda