Há momentos que nos ficam na memória para não mais serem esquecidos. Alguns pelos piores motivos, outros, como os houve em abundante número na temporada de 2013/2014 do Clube Oriental de Lisboa, serão eternamente recordados com um sorriso nos lábios por todos os que tiveram a felicidade de os experienciar na primeira pessoa. E foi desta forma, com a alegre satisfação de quem fala de um acontecimento passado que marcou a sua vida, que Mauro Bastos respondeu sem hesitar quando questionado sobre se o dia 26 de Janeiro de 2014 lhe dizia alguma coisa. “Ui, então não diz?”.

Pois é, o dia 26 de Janeiro de 2014 diz muito a toda a família orientalista. Só quem esteve no Campo Francisco Lázaro naquela data pode descrever, ainda que na restrita medida que as palavras conseguem acompanhar tais memórias, a emoção que pautou o apuramento para a Fase do Subida do Campeonato Nacional de Seniores conquistado a ferros naquela tarde com a vitória por 0-5 sobre o Futebol Benfica.

 
Os efusivos festejos após a confirmação da passagem à 2.ª Fase
 
 

À entrada para a última jornada da etapa inaugural da competição, as circunstâncias eram tudo menos favoráveis para o Oriental: a equipa de Marvila tinha que golear o Futebol Benfica fora de portas para ganhar vantagem sobre o Operário pela diferença de golos e ainda esperar que o Sintrense não vencesse em casa o 1.º Dezembro. Um cenário digno de um filme de suspense com contornos dramáticos para a personagem principal, mas que nem assim fez os Guerreiros caírem por terra.

“Era quase como ganhar o Euromilhões. Ninguém contava connosco mas o grupo acreditou até ao fim que era possível, e valeu bem a pena. A alegria que sentimos naquele dia foi muito grande, conseguimos o impossível. Foi sem dúvida o melhor dia que passei aqui no Oriental”, recorda Mauro Bastos.

Muita história há para contar sobre os 90 minutos mais descontos (e que descontos!) daquela tarde em Benfica. Tiago Mota, autor a par de Mauro Bastos de um dos golos do Oriental naquele jogo, é perentório ao descrever em pormenor o que se passou há um ano como se, na verdade, tivesse acontecido ontem. E como é bom relembrar uma crença que valeu, no final das contas, o consumar de um dos mais belos momentos da já longa vida do Clube Oriental de Lisboa.

“Sabíamos que havia uma pequena esperança e agarrámo-nos a ela com todas as nossas forças. Nestes jogos a motivação é máxima, era tudo ou nada e nós entrámos em campo para golear. Queríamos acima de tudo consumar com sucesso o nosso trabalho, para acabarmos com a certeza de que se não desse pelo menos tínhamos cumprido a nossa parte”, confessa Tiago Mota.

O caminho até à merecida glória foi longo e os golos, por muitos que fossem aparecendo, pareciam nunca chegar. Ballack deu a vantagem ao Oriental com um bis consumado aos 15 e aos 26 minutos de jogo. Tiago Mota fez o 0-3 quando o cronómetro assinalava 37 minutos e conta hoje ter recebido a indicação do banco “que só faltava mais um”, mas não era bem assim. Mauro Bastos colocou o marcador nos 0-4 aos 89 minutos e a história voltou-se a repetir.

 
  “Quando fiz o golo pensei que já era suficiente mas 5 segundos depois alguém disse que ainda faltava mais um, com o jogo já nos 90 minutos. Aos 92’ o Sebastien fez o 0-5 depois de um grande passe do Grilo e pouco depois ouviu-se o apito final, mas o nosso sofrimento ainda se prolongou por mais três minutos. O jogo do Operário ainda não tinha terminado e se eles marcassem mais um golo nós morríamos na praia…”, relembra Mauro Bastos.

Foram três minutos que pareciam não ter fim, intermináveis momentos de “enorme ansiedade” que tiveram um final feliz. E é aqui que as palavras começam a faltar para descrever tão extasiante sensação.

“Quando o Mister Jorge deu a notícia de que tínhamos passado foi uma explosão de alegria incrível. Uns começaram aos saltos, outros choraram, outros ficaram incrédulos com o aquele tão improvável desfecho. Aquela vitória fez-nos ganhar uma enorme alma e crença nas nossas capacidades, um espírito de grupo inquebrável que nos levou mais tarde a subir de divisão. É certo que o jogo em Ferreiras [empate a uma bola que confirmou a 24 de Maio de 2014 o regresso do Oriental à Segunda Liga] foi muito festejado, mas foi neste dia que começou a nossa subida de divisão”, garante Mauro Bastos.

Os cinco golos apontados naquela tarde de 26 de Janeiro de 2014 e a incrível conjugação de resultados que os acompanhou foram de facto um impulso fundamental para o consumar do regresso à Segunda Divisão Nacional. Tal como confirma Tiago Mota, os jogos da segunda fase do CNS “foram encarados como se fossem finais” e no final da temporada todo o esforço foi recompensado. Tudo graças à inolvidável vontade de vencer dos Guerreiros de Marvila, incansáveis no empenho em honrar a camisola do Oriental até ao último suspiro.
 


Mauro Bastos e Tiago Mota foram peças fundamentais na época 2013/2014 do C.O.L.
 
 

“Quando aquele dia terminou e tivemos oportunidade para parar e pensar, sentimos que se sofremos tanto até ali o desfecho da época teria que nos ser favorável. Soubemos que tinha que dar para nós. Foi a partir dali que começámos a escrever a bonita página da História do Oriental que culminou com a subida de divisão”, relembrou Tiago Mota.

Culminou por agora, mas novas vitórias virão. A recordação de grandes momentos traz-nos uma sensação de nostalgia e, simultaneamente, transmite-nos a responsabilidade de que ainda há tanto por conquistar. Este é um Clube que luta diariamente por enaltecer ainda mais a sua já grandiosa História, e tantos episódios estão ainda por contar.